QUEM CUIDA DA SAÚDE MENTAL DOS MÉDICOS?

Publicado em: 5 de set, 2019

TEMPO DE LEITURA: Aprox. 5min

REDAÇÃO: MARISOL DE FREITAS VIEIRA    REVISÃO: DR. CLÁUDIO J. TREZUB

Profissionais e estudantes de medicina não recebem o atendimento necessário para enfrentar  as  situações  emocionais e psicológicas

A realidade dos médicos brasileiros, – baixos salários e a necessidade de ter mais de um emprego, e, consequentemente, acumular muitas horas de trabalho geram problemas como estresse e depressão, que são frequentemente confundidos com mero cansaço.

Porém, o que se vê na prática, é que não são situações que se resolvam apenas com algumas horas de descanso. Faz-se necessário, em primeiro lugar, um acompanhamento profissional.

Entretanto, os médicos ainda encontram muita dificuldade em se identificar como pacientes, especialmente quando o assunto é a saúde mental. Para muitos, esse comportamento caracteriza admissão de fraqueza e de fracasso, e. por isso, existe muita relutância na busca espontânea por ajuda.

OS ALTOS NÍVEIS DE ESTRESSE DOS MÉDICOS

Uma pesquisa revelou que dentre as 10 profissões consideradas mais estressantes, 7 são relacionadas à área da saúde, sendo que a profissão de médico na especialidade de urologiaficou no primeiro lugar da lista, classificado como “100” no nível de estresse (que vai de 24 a 100).

É consenso  que médicos enfrentam uma rotina altamente estressante, porém pouco se fala a respeito dos efeitos que isto pode causar na saúde destes profissionais, e quase nada se faz no sentido de combater ou prevenir tais efeitos – que se refletem na saúde de toda população.

MEDICINA: AS DORES DA PROFISSÃO

A profissão de médico carrega uma série de exigências sociais e individuais, que, somadas, são quase sobre-humanas.

Em primeiro lugar, médicos lidam todos os dias com a vida, a saúde e o bem-estar das pessoas, e precisam frequentemente tomar decisões importantes neste sentido. Talvez por causa dessa responsabilidade elevada, é muito grande a expectativa pela decisão acertada do médico, como se o erro ou o insucesso estivessem fora de questão.

A cobrança parte, muitas vezes, do próprio médico, que encontra dificuldades emocionais em enfrentar problemas comuns à profissão, como a perda de algum paciente ou a acusação de erro médico.

Além disso, há uma exigência da sociedade sobre estes profissionais, pelo fato de enxergá-los como heróis, distanciando-os da figura de humanos – que tem fraquezas, incertezas, inseguranças, e que, principalmente, cansam física e mentalmente.

Some-se a isso a proximidade que eles têm com a dor e ao sofrimento das pessoas, e também a sensação de impotência experimentada por médicos em situações de tratamentos fracassados – seja por adversidades da natureza, por condições ruins de trabalho, ou por qualquer outro motivo.

Aspectos como esses fazem da profissão do médico algo que exige muito equilíbrio emocional, e que, muitas vezes, cobra um preço alto da saúde mental dos mesmos.

SINTOMAS GRAVES

É de conhecimento de grande parte da população que o estresse em níveis elevados, ou vivenciado por um longo período de tempo, é prejudicial à saúde. O aumento da pressão arterial, do risco de infarto, as dores musculares, nas costas, na região cervical e as alterações de pele são exemplos físicos de sintomas causados pelo estresse elevado, e que não podem ser ignorados.

Além disso, a pressão da profissão, as poucas horas de sono, e todos os problemas enfrentados pelos médicos todos os dias, podem levar à quadros de transtorno bipolar, dependência de álcool e drogas, depressão e ansiedade.

DE ALUNOS A PROFISSIONAIS

Ao que tudo indica, ser médico é estressante desde antes mesmo a carreira se iniciar. Os cursos de Medicina são sempre os mais concorridos, principalmente entre as universidades públicas. Passar em um vestibular deste tipo exige muito estudo, mas não chega nem perto dos anos de dedicação que o aluno precisa ter depois que inicia o curso.

Outro momento crítico acontece quando os estudantes precisam iniciar a residência médica, tendo que dividir suas horas entre os estudos e o trabalho dentro de hospitais públicos.

Além do problema do tempo em si, os residentes talvez não estejam totalmente preparados para a dura realidade que é a saúde pública vista de perto. Falamos aqui de falta de equipamentos, medicamentos, e de condições mínimas de trabalho, da alta demanda de pacientes (muitas vezes, insatisfeitos), e das muitas horas de trabalho sem grandes reconhecimentos.

Isso tudo acaba gerando, além do estresse, um sentimento de frustração nos estudantes. Somado à pressão social, familiar, e da universidade, muitos deles vivenciam também problemas como depressão, ansiedade e até mesmo ideação suicida.

PROJETO DE LEI

Pensando em minimizar estes problemas, tramita na Câmara o Projeto de Lei 10105/2018, que prevê que estudantes de Medicina e médicos residentes tenham acesso a assistência psiquiátrica e psicológica. A obrigação quanto a oferta do atendimento fica por conta das instituições aos quais os alunos e residentes estão veiculados, como hospitais universitários e universidades.

A autora e os relatores do PL entendem que não há como profissionais da saúde oferecerem um bom atendimento médico se estes não estiverem bem mentalmente. Portanto, caso o projeto seja aprovado, irá favorecer não somente estudantes de medicina, residentes e profissionais, quanto a população que depende da saúde pública e privada.


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