TRATANDO PACIENTES E NÃO RESULTADOS DE EXAMES

Publicado em: 26 de set, 2019

TEMPO DE LEITURA: Aprox. 5 min.

REDAÇÃO: MARISOL DE FREITAS VIEIRA    REVISÃO: DR. CLÁUDIO J. TREZUB
Imagem título, com os dizeres: Tratando pacientes e não resultados de exames. A imagem é azul e cinza claro. Na area maior e azul, os dizeres, ena área menor e cinza a logomarca da CW3 Perícias, Cursos e treinamentos.

EXAMES DESNECESSÁRIOS COMPROMETEM A SAÚDE DO PACIENTE E DA MEDICINA SUPLEMENTAR

De acordo com notícia divulgada no site Gazeta Online, os médicos brasileiros estão entre os que mais pedem exames complementares, como tomografias e ressonâncias magnéticas, por exemplo. O Brasil apresenta mais solicitações destes procedimentos do que países desenvolvidos, com crescimento de 22% em dois anos, segundo a ANS.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar e alguns especialistas indicam que muitas destas solicitações podem estar sendo feitas indevidamente. E as causas vão desde falhas na formação médica, passando por interesses financeiros de hospitais e laboratórios, ou devido à baixa remuneração por parte das operadoras aos prestadores de serviço.

A prática dos exames em excesso, que gera um alto custo tanto para a saúde pública quanto para a medicina suplementar, onera toda a sociedade.

Imagem representativa de um médico atendendo um paciente, ambos sentados, separados pela mesa de trabalho do médico, que escreve em uma folha.

Muitos exames poderiam ser substituídos por uma boa anamnese e por exames clínicos. A partir deles, é que o médico deve formular hipóteses diagnósticas, para daí então solicitar exames de boa acurácia, somente para aquelas hipóteses.

Porém, é comum que alguns pacientes cheguem ao médico praticamente exigindo a realização de uma bateria de exames para ficarem mais tranquilos, por mais incômodo que seja ir até um laboratório, realizar o procedimento e aguardar o resultado. Isso faz parte da cultura distorcida de que quanto mais testes se realizarem, melhor.

Imagem representativa de um médico, sentado, auscultando o coração de um paciente, sentado e sem camisa.

Entretanto, cabe aos médicos realizar uma boa prática e instruir seus pacientes sobre a desnecessidade de muitos dos exames “populares”, bem como alertá-los dos problemas do excesso de exames complementares.

As requisições devem estar sustentadas na observação clínica completa e no diagnóstico baseado na história natural da doença.

Os profissionais também podem eser impelidos a pedir exames sem necessidade e prescrever tratamentos sem evidências na literatura, tudo na  busca utópica pelo risco zero e pela segurança absoluta, ou na intenção de se resguardar contra reclamações ou mesmo ações judiciais.

Segundo Solange Mendes, presidente da FenaSaúde, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, “o desperdício no atendimento médico é um dos grandes componentes da inflação na área de saúde”.

Em 2015, foram realizados 746,9 milhões de exames complementares no Brasil, gerando um custo de R$ 25,1 bilhões, de acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Trata-se da segunda maior despesa para as operadoras de saúde, ficando atrás apenas das internações.

DANOS AO PACIENTE E À SOCIEDADE

Além de afetarem financeiramente a saúde pública e suplementar, tratamentos e exames desnecessários podem ser prejudiciais para o paciente, além de contraproducentes para o diagnóstico correto.

Imagem representativa de uma pessoa fazendo um raio-x no tórax.

Em primeiro lugar é possível citar como exemplo os exames de radiografia, como os de tórax (em pré-operatórios), de coluna, e os de seios da face, comumente solicitados por médicos e que não trazem ganhos em termos de diagnóstico ou prognóstico quanto ao tratamento a instituir.

Radiografias em excesso devem ser evitadas, uma vez que são prejudiciais à saúde, e podem agravar o quadro do paciente em certas situações. Estima-se, por exemplo, que 3% dos cânceres são causados por exposição à radiação.

Outro exemplo são as ultrassonografias da tireoide. A US de tireoide é um exame de alta sensibilidade, e pode detectar alterações anatômicas mínimas (1 ou 2mm). Como nódulos de tireoide são muito comuns (estima-se que aproximadamente 50% dos adultos saudáveis apresentam algum tipo de nódulo na tireoide), o pedido de um exame desta natureza, sem que haja uma probabilidade clínica objetiva, pode gerar muitas dúvidas e preocupação no paciente, e até mesmo motivar indicação de tratamento ou procedimentos desnecessários por parte do médico menos atento. Estatisticamente mais de 90% dos nódulos de tireoide são benignos, porém o paciente que se veja na condição de “portador de um nódulo” poderá ficar abalado e com incertezas, nem sempre conseguindo assimilar a informação de que o achado é desprezável e não implica em risco.

Além disso, ao submetermos o paciente a um exame dispensável estaremos retardando o diagnóstico enquanto o resultado deste exame não sai (e às vezes a demora na realização é bastante), podendo, às vezes, inclusive haver piora do quadro do paciente nesse período.

Essa prática pode também acarretar no que se denomina em inglês overtreatment ou overdiagnosis, que é quando algo sem grande importância ou significância é diagnosticado e tratado, trazendo mais danos do que benefícios ao paciente.

USAR O RACIOCÍNIO PROBABILÍSTICO SEMPRE

Representação de dois médicos, um sentado em frente ao computador trabalhando em um laudo, outro apontando para a tela do mesmo computador, em pé. No fundo, representações de laudos, exames e gráficos.

Sempre que for viável, o acompanhamento de pacientes e o trabalho da medicina preventiva podem ser estratégias inteligentes para reduzir custos na saúde. Isso torna-se possível pela prevenção de doenças crônicas, de cirurgias, do uso de medicamentos contínuos, e da necessidade da realização de certos exames.

Atualmente, também é possível cruzar dados de tratamentos passados e atuais para oferecer tratamentos mais inteligentes, eficazes, seguros e confiáveis para os pacientes.

Não deixe de nos contar sua opinião, como paciente ou como médico, ou de contar sua história, caso já tenha vivenciado uma situação dessa natureza.


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