A RELAÇÃO MÉDICO-SOCIEDADE PÓS-COVID-19

Publicado em: 30 de abr, 2020

TEMPO DE LEITURA: Aprox. 3min

Título: A Relação médico sociedade pós covid19

Desde o surgimento do coronavírus, muita coisa mudou. O que parecia mais uma síndrome respiratória aguda estrangeira, caracterizada inicialmente como uma epidemia, logo atingiu o status de pandemia e transformou globalmente o modo como vivemos e nos relacionamos com os demais. Ninguém estava pronto para lidar com isso. E apesar dos quase dois meses convivendo em meio a esse tsunami na saúde pública, ainda estamos nos adaptando a tudo. 

Entre as mudanças, uma delas afetou de sobremaneira a relação histórica médico-paciente: o isolamento social. Com o avanço da doença, ficou impraticável o atendimento tradicional no consultório. Aquele encontro, sacramentado há milênios, com o paciente em frente ao médico, tornou-se arriscado demais tanto para o médico como para o paciente.

Por força da ocasião – e também para o avanço e aperfeiçoamento da prática médica – o CFM (Conselho Federal de Medicina) autorizou a telemedicina. Desde 19 de março deste ano, o Conselho reconhece a eticidade do uso da telemedicina nos seguintes termos:

  • teleorientação: permite que médicos realizem a distância a orientação e o encaminhamento de pacientes em isolamento; 
  • telemonitoramento, que possibilita que, sob supervisão ou orientação médicas, sejam monitorados a distância parâmetros de saúde e/ou doença; 
  • teleinterconsulta, que permite a troca de informações e opiniões exclusivamente entre médicos, para auxílio diagnóstico ou terapêutico.

Uma nova realidade que trouxe necessidades de adaptação para ambas as partes. Os médicos – mesmo os mais resistentes à ideia – viram-se obrigados a rever o modo como trabalham. Sem o paciente fisicamente a sua frente, o profissional teve que se adaptar à consulta em novas condições. Como examinar o paciente sem poder tocá-lo, por exemplo? A não ser em casos de acompanhamento continuado, em que já foi realizada uma consulta presencial inicial, o exame físico presencial é procedimento essencial para a a chegada a um diagnóstico e proposição do tratamento. Como lidar com isso?

Também por parte dos pacientes há que se lidar com situações de dúvidas, como por exemplo: seria suficiente a entrevista feita pelo profissional durante a consulta a distância para garantir um diagnóstico preciso? Terei a mesma confiança e segurança quanto ao uso da medicação prescrita? Para muitos pacientes é muito importante, nesta relação de confiança, o contato presencial, o exame físico, o olho no olho. Estão acostumados e necessitam disso. É uma tradição milenar, arraigada não só na prática médica, mas também nos costumes e na cultura popular.

Médico com 2 máscaras na mão direita e um vidro de alcool em gel na esquerda. O médico usa máscara.

É certo que nem toda a novidade é bem-vinda. Ainda mais quando mexe com nosso conforto ou segurança. Mas são mudanças necessárias, dado o momento que vivemos.


E apesar de todo o transtorno inicialmente causado tanto para médicos quanto para pacientes, ambas as partes estão lidando relativamente bem com a nova realidade. Nesse sentido, mesmo com eventuais resistências, estamos progredindo. 

Na verdade, o problema – e que vai além da questão de saúde pública – são as consequências e implicações na relação médico-sociedade.

DE HERÓI A VILÃO

Do ponto de vista social, um dos reflexos mais impressionantes e injustos da pandemia é a inversão da imagem do médico senão por todos, mas por parte da população. Médicos, que historicamente são vistos como heróis pela sociedade, passam a ser encarados como possíveis vilões transmissores do vírus. De admirados a hostilizados. Por estarem na linha de frente, muitas vezes no contato direto com pacientes do coronavírus, podem ser vistos publicamente como uma ameaça à saúde da família e da população. O medo do desconhecido provocando reações de discriminação.

Na França, uma enfermeira que trabalhava diretamente com pacientes com COVID-19, foi surpreendida ao chegar na garagem de seu prédio e descobrir escrita no parabrisa do seu carro a frase: “se um caso for confirmado no prédio, você será responsável”. A mensagem foi assinada com a alcunha “vizinhos”. Apesar de ter sido obra de apenas um indivíduo, pode-se admitir que refletia o pensamento de uma parte dos moradores que se sentiam ameaçados com a presença da profissional, que tem arriscado sua vida para tentar salvar aos demais. A tensão acumulada por conta da pandemia encontrou ali uma injusta válvula de escape. 

Ainda na França, o hospital Lariboisière, no norte de Paris, teve que contratar seguranças para acompanhar médicos e enfermeiros até seus veículos. Seguranças também acompanham os profissionais do hospital no caminho ao metrô. Vários já foram vítimas de agressões verbais. Cansados de serem hostilizados nas ruas, essa foi a maneira encontrada pela instituição para proteger seus profissionais e garantir a integridade física e emocional dos mesmos.

Já na Espanha, o alvo da fúria injustificada foi uma ginecologista – que nem trabalha diretamente. com pacientes do vírus. Seu carro, estacionado na garagem do prédio onde morava, foi pichado hostilmente com as palavras “rata contagiosa”. Ao ver a pichação, a médica entrou em choque, inconformada com a violência demonstrada. A humilhação grosseira, com autor não-identificado, é apenas um dos exemplos ocorridos na Espanha, país em que a pandemia já fez mais de 20 mil vítimas desde o início da pandemia.

HOSTILIDADE FRANCESA

Na França, não são apenas os médicos que enfrentam a hostilidade da parte não esclarecida da população. Os enfermeiros, ainda mais numerosos que os médicos, têm sofrido na pele o preconceito e a fúria gerada pelo medo irracional e descontextualizado do coronavírus. Até o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, foi a público criticar as palavras odiosas proferidas aos profissionais e pedir razoabilidade e bom senso à nação. 

No sudeste de Paris, mais precisamente em Vulaines-sur-Seine, uma enfermeira recebeu em casa uma carta dos vizinhos pedindo para que a mesma deixasse de fazer compras no comércio da região e também parasse de passear nas ruas com seu cachorro. Furiosa com a covardia expressa em carta, Lucille – que pediu para seu sobrenome não ser divulgado – lembrou a todos que ela e os demais profissionais de saúde estão arriscando as próprias vidas na luta contra o vírus e que não é justo serem tratados como leprosos.

Os casos e exemplos hostis na França são inúmeros e continuam a figurar dia a dia nas páginas dos principais sites e jornais do país.

Em Montpellier, no sul da França, uma enfermeira que trabalha na UTI do hospital da cidade se viu obrigada a mudar de casa após ter sido pressionada pelos proprietários do imóvel onde morava. Ela alugava o primeiro andar de um prédio residencial de dois andares, sendo que os proprietários – um casal de idosos – habitava o andar de cima. Primeiro pediram para a enfermeira sair. Depois, insatisfeitos com a insistência da enfermeira em permanecer no imóvel, cortaram o sinal da televisão, o aquecimento e até a água, além de arrastar cadeiras e móveis para fazer barulho.

Sem saída, a enfermeira mudou-se com a filha para um apartamento alugado perto do hospital. Autoridades e internautas denunciaram o caso às autoridades locais e o casal de idosos pode ser condenado a até três anos de prisão e pagamento de multa no valor de 30 mil euros.

O detalhe curioso dessa história é que quem ia às compras para o casal, no início do isolamento social, era a enfermeira, que se ofereceu para ajudar os idosos durante o período que durasse o confinamento. 

NO BRASIL

No Brasil, os casos de agressão ou hostilidade a médicos e profissionais da saúde também preocupam. Em Belém, no Pará, um médico foi agredido após relatar COVID-19 como a causa da morte de um paciente da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro de Terra Firme.

A família da vítima alegava que a causa da morte teria sido pneumonia e não coronavírus. Inconformados com o resultado relatado pelo médico, começaram a agredir o profissional, física e verbalmente, inclusive retirando a máscara de proteção que o médico usava para o atendimento. Tudo gravado em vídeo e depois compartilhado nas redes sociais. 

Nos metrôs de São Paulo, os casos de agressão verbal e xingamentos aos profissionais de saúde se multiplicam na mesma velocidade do avanço da doença. A técnica de enfermagem, Cecília de Vasconcelos, de 37 anos, tem várias histórias para contar. Certa vez, após um exaustivo plantão, foi hostilizada enquanto viajava num dos vagões da linha azul do metrô.

Pessoas com as mãos estendidas mostrando a palama em um sinal de basta.

Um dos passageiros gritou que ela deveria estar em casa, que ia passar doença para todo mundo, sendo que outros passageiros se uniram ao coro, num achincalhamento público sem razão.


Em outra situação, Cecília foi impedida de entrar num trem por um rapaz que a empurrou para trás e lhe disse: “aqui você não entra”. Intimidada pelo gesto, Cecília ficou com medo e aguardou o próximo trem para seguir viagem. 

Relatos que fazem parte de uma nova e triste realidade médica. Uma realidade onde aqueles que se arriscam no combate ao vírus são vistos como uma ameaça à saúde dos demais. 

Mas vale destacar que, apesar de numerosas, estas atitudes despropositais não refletem a realidade quanto ao comportamento da sociedade em relação aos profissionais de saúde.

APLAUSOS

Diferentemente dos casos relatados, a maior parte da sociedade reconhece o trabalho e a dedicação dos médicos e pessoal da saúde no enfrentamento da doença. Os aplausos proferidos das sacadas dos prédios, em várias cidade pelo mundo, são um boa prova disso. A celebração acontece diariamente em pontos diferentes do globo, como uma demonstração pública do reconhecimento e agradecimento da população aos médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde empenhados no combate ao avanço da pandemia.

Todo o cenário é muito recente e requer calma, razoabilidade e bom senso. Os médicos não são os vilões desta história, mas também não fazem questão de serem tratados como heróis. Estamos falando de profissionais que se dedicam única e exclusivamente à preservação e manutenção da vida. Uma missão que vai muito além do simples exercício da profissão.

Que a medicina não será a mesma após a COVID-19, disso pouca gente duvida. A pandemia fez com que profissionais e sociedade refletissem não apenas no modo como essa relação se dá, mas também nos recursos disponíveis para essa interação médico-paciente.

Então, que seja possível que tiremos desse período o melhor aprendizado possível. E que a prática da medicina possa evoluir após esse cenário de calamidade sanitária pública nunca antes experimentado por nenhum de nós. 

E que a sociedade perceba que profissionais da saúde devem ser honrados e respeitados sempre, mesmo sem o intercurso de epidemias, pela escolha que fizeram. Que se doam por nós diuturnamente, apesar de por vezes não contarem com adequadas condições de trabalho e remuneração digna. Herois anônimos no dia a dia, merecem aplausos continuadamente. E jamais deveriam ser vítimas de violência ou discriminação de qualquer ordem.

CONTEÚDO TÉCNICO: DOUTOR CLÁUDIO J. TREZUB

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