ASSÉDIO, ABUSO E MÁ CONDUTA NA ÁREA DA SAÚDE

Publicado em: 21 de Maio, 2020

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O assédio pode se dar de várias formas. Pode acontecer por meio de uma insistência permanente, perseguição, sugestão ou pretensão em relação a outrem. É manifestado através de comportamentos que humilham, denigrem, rebaixam e violentam moral ou psicologicamente uma outra pessoa ou um grupo específico. Uma violência covarde que não deveria ter espaço em nossas relações, mas muitas vezes se faz presente – velada ou explicitamente.

Seja como for, o assédio tem o poder destruidor de minar a pessoa vítima desse tipo de violência. Destrói a auto-estima, afeta o equilíbrio emocional, prejudica a saúde física e muitas vezes pode levar ao desenvolvimentos de fobias, depressão, síndrome de ansiedade e outras manifestações ainda mais sérias.

Banalizado por séculos, o assédio passou a receber um outro olhar da sociedade ao fim do século XX. Um repensar de hábitos e costumes até então considerados normais. e que, a partir de uma reflexão mais aprofundada, passaram a ser vistos como inaceitáveis. O assédio sexual a mulheres é um exemplo. Tolerado e até estimulado socialmente por milênios, a prática deixou de ser vista simplesmente como uma manifestação regular do desejo masculino. Assediar mulheres deixou de ser um direito dos homens e passou a ser considerado uma forma de violência e abuso às mulheres.

Nesse debate, questões de raça, gênero e religião também passaram a ter um outro entendimento. O que antes era motivo de piada, passou a ser visto até como crime. Estes são apenas alguns exemplos de como a sociedade evoluiu em sua compreensão e aceitação dos direitos individuais e coletivos nestas últimas três décadas. 

Ainda assim, o assédio continua presente. Certamente de forma mais discreta do que anteriormente, mas ainda uma realidade com a qual podemos nos deparar todos os dias. Inclusive no exercício da profissão. 

ASSÉDIO NA ÁREA DA SAÚDE

Os casos de assédio envolvendo profissionais da saúde são alarmantes e refletem as dificuldades de uma rotina já permeada por diversos desafios. Médicos, anestesistas, enfermeiros, socorristas… os relatos não poupam categorias nem perfis laborais.

No caso dos profissionais da saúde, o assédio pode se dar de várias maneiras: dentro de uma relação hierárquica profissional (como de um chefe para um subordinado), entre colegas, ou mesmo por parte de pacientes ou de outros integrantes da equipe institucional. Há também os casos em que médicos assediam moral ou sexualmente seus pacientes – e estes são tão graves quanto os cometidos em via inversa.

Ocorre que, ainda, o assédio moral em muitas instituições não é visto como tal, e faz parte do comportamento “natural” das pessoas e da estrutura. tido com naturalidade. Uma realidade com a qual o médico começa a se relacionar logo nos período de residência médica, quando se defronta com a rotina inédita – porém estressante – vivenciada em longos plantões, com a soberba de outros médicos em relação aos iniciantes na profissão, a falta de atenção e reconhecimento dos gestores de clínicas e hospitais.

Uma experiência que muitas vezes faz com que jovens talentos deixem a medicina desestimulados, ou, em casos mais graves, com complicações psicológicas decorrente do estresse.

Dentre os profissionais da saúde, quando o assunto é assédio. os enfermeiros e enfermeiras também têm muito a contar. Numa pesquisa recente realizada pela Acta Paulista de Enfermagem com 259 enfermeiros trabalhadores de unidades de saúde e hospitais do estado de São Paulo, o resultado mostra que estes profissionais são vítimas constantes de assédio no ambiente de trabalho. Uma situação que afeta não só o estado emocional e físico do indivíduo, mas compromete também sua capacidade laboral.

De acordo com a pesquisa, mais de 32% dos entrevistados revelou que é comum seu superior se dirigir à vítima aos gritos ou fazendo uso de expressões grosseiras. Em outro trecho da pesquisa os trabalhadores puderam declarar como se manifestam as perseguições, e mais de 31% relatou que se dão através da restrição de direitos, como a escolha do período de férias ou folgas, por exemplo. O assédio também pode se dar através do isolamento ou da falta de comunicação com o indivíduo. Nesse sentido, a pesquisa mostra que mais de 50% dos entrevistados costumam ser ignorados propositadamente pelo seu superior em conversas ou reuniões no trabalho. 

ASSÉDIO SEXUAL

Seja qual for a natureza, as pesquisas mostram que o assédio é um mal comum aos ambientes e relações da área da saúde. Não tão explícita e comum como o moral, o assédio sexual também faz parte da vida dos médicos e profissionais. Uma pesquisa realizada e publicada pela Medscape, no ano passado, com mais de dois mil profissionais da saúde, mostra como esse é um cenário preocupante. 

O estudo sobre assédio, abuso e má conduta no ambiente de trabalho mostrou, entre outros dados, que se tratam de situações ainda pouco relatadas e documentadas no país. Por medo de novas perseguições e retaliações ou mesmo por falta de conhecimento do que fazer, muitas vítimas acabam não denunciando a prática. Há também a questão da vergonha pessoal, da invasão daquilo que é tão íntimo, como a dignidade física e afetiva.

O assédio pode se manifestar de várias maneiras, como mensagens ou telefonemas indesejados, olhares inadequados, comentários sobre a forma física, sobre a situação matrimonial, convites para programas ou viagens, oferta de promoção, entre outras.

Um entre cada dez participantes da pesquisa disse já ter testemunhado assédio sexual nas instituições em que trabalha. Sete por cento vivenciou abuso, assédio ou má conduta sexual por parte de um colega ou superior. A pesquisa também mostra que as vítimas mais comuns são as mulheres, num percentual quase duas vezes maior que os homens.

De acordo com os relatos das vítimas, 53% dos casos tem como assediador um médico. Oito por cento dos assediadores são enfermeiros e outros oito por cento parte da equipe de enfermagem. São os perfis mais comuns. Assusta a maioria avassaladora de assediadores médicos no ambiente de trabalho. Ainda de acordo com as vítimas, 73% dos casos relatados à administração sequer foram alvo de investigação. Uma impunidade que reforça a sensação de que tais práticas são normais e que têm seu espaço no ambiente profissional. 

Se algumas vezes aparecem como vilões, em outras são os médicos as vítimas. É mais comum do que se imagina o abuso ou má conduta de pacientes durante uma consulta ou tratamento. Não é raro os casos de pacientes que tomam iniciativa física ou demonstram interesse pelo médico. É uma situação romanceada, que faz parte do imaginário coletivo. E os programas de TV e filmes reforçam o estereótipo – o que já é mais que suficiente para alguns pacientes extrapolarem o limite da relação médico-paciente.

Em geral, são casos que também não são alvos de apuração ou responsabilização. São tidos como incidentes do cotidiano e resolvidos dentro do próprio consultório.

MESMO BANALIZADO, DEVE SER COMBATIDO E DENUNCIADO

Apesar de banalizados, casos de abuso, assédio ou má conduta dentro da área da saúde, envolvendo profissionais ou pacientes, não deveriam ser minimizados. E não apenas na área da saúde, afinal trabalhadores de várias profissões estão sujeitos a este tipo de violência regularmente. O que acontece na área da saúde é apenas um retrato 3×4 de uma realidade bem maior, presente na vida de milhões de brasileiros, e da qual todos, um dia, podem ser vítimas – querendo ou não.

O fato é que não se deve tolerar, em nenhuma instância, práticas que permitam ou reforcem o assédio moral ou sexual. A banalização leva à impunidade, e a impunidade traz o sentimento de que o ato é permitido e de que não haverá consequências práticas ou palpáveis para o agressor. Sim, porque assédio é agressão física ou moral, e estas práticas não podem encontrar espaço nos dias atuais. 

Se você vir ou tomar ciência, denuncie. Se por algum motivo a denúncia não for possível, e você perceber que alguém está sendo assediado no seu ambiente de trabalho, oriente e ofereça ajuda. Muitas vezes a opressão é tanta que a vítima já não tem mais forças ou coragem para reagir ou para expressar a necessidade de auxílio. 

Ser solidário nessas horas é uma demonstração digna de humanidade e empatia com quem precisa.

CONTEÚDO TÉCNICO: DOUTOR CLÁUDIO J. TREZUB

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