EXISTE UMA POSTURA IDEAL?

Publicado em: 28 de Maio, 2020

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Para que comecemos o debate, é importante estabelecermos o conceito de Ergonomia e postura ideal. A origem da palavra é grega: Ergo significa trabalho e Normos quer dizer regras. Portanto, resumidamente, Ergonomia é o estudo das interações entre nós, seres humanos, e os outros elementos do sistema do trabalho. E umas das frentes desses estudos diz respeito ao modo como física e estruturalmente realizamos o nosso trabalho. Apesar de mais evidente nas pesquisas científicas, a questão que envolve a Ergonomia vai muito além e impacta de forma preponderante na nossa qualidade de vida. 

E por que isto é importante? Mais que importante é essencial entendermos e respeitarmos essa relação biomecânica com nosso próprio corpo. Já parou para pensar no modo como você levanta da cadeira, como retira um peso do chão ou como se senta frente ao computador? Provavelmente não. Só pensamos nisso quando sentimos algum incômodo, dores ou algum tipo de limitação do movimento. Tudo isso é feito mecanicamente por nosso corpo, através do comando da mente já condicionada às atividades triviais do nosso dia a dia.

COMO FUNCIONA?

Pense no corpo como uma junção de três grandes peças: cabeça, tronco e bacia (cintura e membros inferiores). Imagine que para que estas três peças se mantenham em pé e alinhadas é preciso encontrar nesta equação o ponto de equilíbrio. O resultado manifestado pelo encontro deste ponto de equilíbrio é o que designamos comumente de postura. Não à toa, desde pequenos alertaram ou lhe chamaram a atenção por isso?

Cuidar com nossa postura nem sempre significa que há uma postura ideal. Difícil falar disso quando cada corpo humano tem sua própria conformação, seu desenho ósseo, com peso e altura variável e tantos outras características intrínsecas a cada ser. Um corpo não é igual ao outro. Não existe um padrão,logo, há de se ter em mente que não existe uma postura física ideal. Isso vai variar de pessoa para pessoa. O famoso “Endireita as costas!” nem sempre é o artifício correto para melhora da postura. Assim como diziam os cretas em relação a suas criações artísticas, cada vaso é um vaso… e o mesmo vale para o corpo humano. 

ERGONOMIA NO TRABALHO

Boa parte dos estudos da área são relacionados ao modo como usamos o corpo para realizar nosso trabalho. Como temos corpos e trabalhos diferentes uns dos outros, hoje em dia se adota uma abordagem bem mais flexível sobre o que é ou não correto quanto à postura física no ambiente de trabalho.

É muito comum as empresas disponibilizarem equipamentos ou acessórios para prevenir problemas que eventualmente possam ser causados durante a execução do trabalho. Em setores em que as pessoas exercem suas atividades sentadas e em frente ao computador, por exemplo, é de praxe oferecer ao funcionário descanso para o pulso ao usar o mouse, apoio ou relaxador para os pés, descanso de pulso para o teclado e outros dispositivos que em tese ajudariam a prevenir problemas como lombalgia, hipercifose, tendinite ou mesmo doenças crônicas como as LER (Lesão por Esforços Repetitivos) / DORT (Doenças Osteomusculares Relacionados ao Trabalho).

Há também as empresas que mantêm programas de ginástica laboral. Durante alguns minutos por dia, os funcionários realizam exercícios leves, sob a orientação de um fisioterapeuta ou profissional de educação física. É um momento que, além da movimentação física obrigatória, também funciona como um relaxante para a mente – muitas vezes assoberbada pelas responsabilidades diárias. É um trabalho que precisa ser conduzido com seriedade, para que não vire apenas um momento de brincadeiras e informalidade entre a equipe. 

AS CONSEQUÊNCIAS

O fato é que os problemas causados pela má postura no trabalho prejudicam não apenas a saúde física do trabalhador, mas também a mental. Não é raro trabalhadores nestas condições desenvolverem crises iniciais de enxaqueca, que podem se agravar e se tornar constantes com o tempo.

O comprometimento físico, causado pelos vícios e erros posturais, ou mesmo pelas condições adversas de trabalho também prejudicam o rendimento laboral do funcionário. Tanto que não é incomum trabalhadores serem afastados por conta desses motivos.

Para quem trabalha sentado, uma das queixas mais constantes são as dores na região entre o pescoço e ombro. É que o trapézio, uma importante estrutura muscular do nosso corpo, costuma ser sobrecarregado não apenas pela má postura do indivíduo, mas também pela tensão ou ansiedade, demonstrada pelo encolhimento constante dos ombros ou projeção da cabeça. E quando o assunto é estresse, as mandíbulas também sofrem o desgaste por força da mordida, e impingem ainda mais tensão sobre o trapézio. 

É por isso que tanto os cuidados oferecidos pelas empresas quanto o dedicado pela nossa própria atenção fazem a diferença na qualidade das horas que passamos no trabalho. É preciso estar atento ao exercício da função, à execução da atividade, mas não esqueça dos momentos que relaxa seu corpo. Estar consciente da sua postura física e do modo como a coloca em cada situação do dia refletirá tanto no período que está em atividade como também na sua recuperação noturna durante as horas de sono. Não esqueça que sua condição corporal reflete diretamente em sua qualidade de vida. 

TAMANHO ÚNICO

Já ouviu o ditado: “tamanho único é aquele que não serve para ninguém”?. E é um fato. Equipamentos, roupas e mobiliários que seguem um padrão de tamanho estão se referindo ao padrão de quem? Se somos todos diferentes em nossa estatura, altura e peso, como definir um padrão? Acabam por não servir perfeitamente para ninguém. Não atendem à necessidade e nem se alinham as características do indivíduo. Mesmo quando se trata de vestimenta ou calçados, nem sempre o número “padrão” – P, M, G, etc se ajusta a todos os indivíduos.

Esta é uma situação bem mais comum do que se imagina. Pense num ambiente de escritório, onde trabalham pessoas com diferentes características corporais. A mesa tem, digamos, 50 centímetros de altura. Pode ser ideal para o rapaz de 1,70 e 65 quilos, mas não para o colega de 1,85 e 82 quilos, com pernas bem mais longas e necessidades de espaço diferente. O mobiliário atende igualmente aos dois funcionários? Claro que não. Mas esta é a realidade na grande parte das empresas, mesmo as mais preocupadas com a saúde laboral do funcionário.

E NAS EMPRESAS?

Boa parte dessas empresas talvez nem tenham o alcance de se preocupar com o conforto ou a qualidade do ambiente de trabalho e das acomodações disponíveis para cada profissional. Mas outras, apesar do conhecimento – muitas vezes partilhado pelo próprio RH da companhia – acreditam ser mais barato arcar com eventuais afastamentos ou processos do que adotar uma política de respeito a ergonomia e às necessidades do indivíduo.

Imagine agora a realidade médica nos hospitais. Os médicos têm diferentes conformações físicas. Há os mais altos, os mais baixos, aqueles com um pouco mais de barriga… Tipos físicos que assim como em outras profissões, não necessariamente seguem um padrão. Como fazer com que pessoas com características tão diversas usem, por exemplo, o mesmo tamanho de avental ou bata cirúrgica? E as luvas, toucas, óculos… O equipamento que serve numa pessoa de 1,65 metros não vai proteger do mesmo modo o médico que tem mais de 1,80 metros de altura. 

Mas a realidade é que médicos e enfermeiros convivem com esse tipo de adaptação constante, mesmo quando o assunto são os equipamentos mais básicos de proteção.

Isto sem considerar a falta de equipamentos e material, uma constante em boa parte dos hospitais da rede pública e não raramente também em instituições privadas. Oferecer equipamentos de proteção e trabalho em condições e estado ideal de uso é uma obrigação do contratante, e não uma responsabilidade do médico. Infelizmente, ainda são comuns os casos em que os próprios médicos adquirem com recursos pessoais estes equipamentos. E em tempos de COVID-19 são ainda mais frequentes estes tipos de relatos. 

CADEIROLOGIA EM TEMPOS DE HOME OFFICE

E como fazer agora que boa parte dos trabalhadores ainda está em casa, trabalhando sem a mesma estrutura que dispunham no escritório ou ambiente de trabalho tradicional? E isso inclui desde a cadeira utilizada – que geralmente não é apropriada para horas de trabalho mais extensas – até o tipo de iluminação.

Mas mesmo em casa é bom tomar alguns cuidados. Seguem aqui algumas dicas que podem lhe ajudar a manter a saúde postural, respeitando seus próprios limites, mesmo trabalhando no fictício conforto do seu lar:

  • Não trabalhe sentado no sofá ou na cama. Por incrível que pareça, tem gente que pega o notebook e vai para a cama trabalhar. Acontece que sua postura fica comprometida, devido ao tipo de acomodação oferecida nesses casos.
  • Trabalhe sempre sentado em uma cadeira e com uma mesa de apoio a sua frente. Isso propicia uma postura mais respeitosa com a mecânica do seu corpo, evitando dores na coluna ou no pescoço.
  • A cada duas horas levante da cadeira, se alongue, caminhe um pouco e mude a conformação corporal. Isso ajuda a realinhar a estrutura óssea e evita o desgaste muscular de segmentos que acontece quando se permanece em uma única posição.
  • Mantenha uma rotina de exercícios físicos. Músculos fortalecidos e alongados ajudam a evitar lesões, dores e outras complicações. Além de fazer bem para o corpo, vai ajudar a equilibrar também a mente.
CONTEÚDO TÉCNICO: DOUTOR CLÁUDIO J. TREZUB

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