SAÚDE MENTAL MÉDICA

Publicado em: 14 de fev, 2020

TEMPO DE LEITURA: Aprox. 4 min

Profissionais em risco

De acordo com estudos recentes, a classe médica registra maior incidência de doenças mentais e suicídios que as demais profissões.

As longas jornadas de trabalho, o stress constante devido à responsabilidade inerente ao exercício da função, os baixos salários e a falta de estrutura e recursos físicos para o trabalho são apenas alguns dos fatores que têm causado o adoecimento mental de estudantes e profissionais da área médica.

Há também aqueles que encontram no álcool ou nas drogas uma válvula de escape perigosa para a tensão diária.

Mas a preocupação em relação a todo esse quadro vai muito além. Estudos têm confirmado que o índice de suicídio entre médicos é o mais alto entre todas as profissões. Numa comparação com pesquisas relacionadas à população comum, esse índice chega a ser três vezes maior.

Parte do problema reside no fato de que médicos são profissionais que salvam vidas. Lidam diariamente com questões humanas relacionadas à vida e à morte. Pelo conhecimento que têm sobre saúde física e mental, ser negligente nesse contexto é algo que – na percepção do próprio profissional – é vista como inaceitável.

Por isso, poucos dos que sofrem chegam a pensar em abrir esse problema para alguém. Um índice ainda menor deles chegam a realmente procurar ajuda. E são pouquíssimos os que mantêm um tratamento regular adequado. 

O assunto, como um todo, ainda é um tabu para a classe médica brasileira. Tanto que há poucos estudos relacionados a este tema e a maioria das pesquisas foi realizada no exterior. Pouco se fala do assunto. Mas mesmo sendo um tabu, esse é um paradigma que precisa ser quebrado. Encarar a realidade e tratar do assunto com transparência é a melhor maneira de enfrentar o problema.

Estudantes

Há quem sofra com toda essa pressão antes mesmo de se formar. O número de casos entre os estudantes de medicina também é digno de preocupação. As longas jornadas de estudo, a preocupação com as perspectivas profissionais e a prévia decepção com a realidade do exercício da função são motivos que têm levado muitos deles à drogadição, ao alcoolismo, quadros de depressão, esgotamento e a um índice alarmante de suicídios.

Em apenas um mês de 2018, dois estudantes de uma mesma faculdade particular de Minas Gerais tiraram a própria vida. Em 2017, também já havia ocorrido dois outros casos na mesma instituição. Há muitos outros casos relatados em universidades de medicina pelo país. Um cenário aparentemente surreal quando falamos de jovens que provavelmente sonharam quase por toda a vida em realizar o sonho de se tornarem médicos um dia.

Isso mostra que a atenção ao assunto deve ser iniciada já no período acadêmico. A USP é uma das universidades que mantém um programa preventivo ligado a questões como saúde mental e suicídio. Faz simpósios regulares e busca conscientizar os estudantes quanto à necessidade de ajuda urgente nesses casos.

Rotina e vida pessoal

Ao se formar, o profissional passa a lidar com uma realidade bem diferente daquela com a qual sonhou. O risco ao acometimento, nesses caso, é ainda maior. O trabalho é exaustivo. Com uma agenda apertada, médicos se dividem entre os compromissos diários em consultórios ou hospitais, os plantões extenuantes, a responsabilidade diária de lidar com vidas… A carga física, psicológica e também emocional é imensa.

O exercício da função o faz ter contato constante com a morte. Some-se às cobranças profissionais, o medo de falhar no trabalho, as limitações de conhecimento ou de estrutura física, que são situações que minam diariamente o médico. O resultado é uma angústia profunda, constante e na maioria das vezes não compartilhada, que leva ao adoecimento da psique. 

Além disso, há os casos em que os problemas da saúde mental provém do âmbito pessoal. E não são raros. Conflitos familiares, perda de uma pessoa muito querida, problemas financeiros, baixa autoestima, dificuldades na vida amorosa e até conflitos com a própria identidade sexual podem levar o profissional de medicina ao adoecimento mental. 

Nestes casos, a única saída viável é pedir ajuda. Amigos e familiares são essenciais nessa hora,  mas o acompanhamento médico é imprescindível na maioria dos casos. Ocorre que pedir ajuda médica ou psiquiátrica para um outro profissional de medicina não é necessariamente algo confortável de o médico fazer,  mas é deveras necessário. O socorro na hora certa pode ser a diferença entre a vida e a morte, e talvez esteja aqui o principal modo de pessoas da família auxiliarem, com a insistência na busca de ajuda especializada.

Suicídio entre médicos

Mais comum do que se imagina, os casos de suicídio entre os profissionais de medicina assusta. 

Nos Estados Unidos, cerca de 300 a 400 médicos tiram a própria vida todos os anos. Fazendo uma conta simples, é quase um suicídio por dia.

No Brasil, há pouquíssimas pesquisas ou estatísticas relacionadas a essa realidade. Um estudo recente levantou dados de 2000 a 2009. A pesquisa, que foi realizada pela Unesp, UFPR, Uniad e Ciemesp, revela que 1,7% das causas de mortes de médicos paulistas nesse período foi o suicídio.

Se focarmos apenas nas causas externas apontadas pelo estudo, o suicídio aparece como o segundo maior responsável pelas mortes, atrás apenas dos acidentes de trânsito. Em Pernambuco, só em 2016, sete médicos tiraram a própria vida.

O assunto pode parecer distante quando analisamos estatísticas impessoais, ou quando vistos nas redes sociais ou na internet,  ou ainda nos jornais, mas o risco ronda todos os profissionais e certamente impressiona quando acontece com um colega próximo, o que tem sido cada vez mais presente. 

Atenção sempre

É preciso estar atento. Não só com você mesmo, mas também com os profissionais a sua volta.

Aquele colega cumpridor, que nunca chega atrasado, e de uma hora para outra passa a se atrasar com frequência, ou faltar ao trabalho, pode estar sinalizando um pedido de socorro. Outros sinais que podem evidenciar dificuldade ou problema são, por exemplo, alterações no humor – melancolia ou tristeza, irritabilidade e mau humor, abuso ou aumento na ingestão de bebidas alcoólicas (mesmo que socialmente), fuga de compromissos sociais ou familiares, abandono de práticas de lazer, esportivas ou hobbies, falhas de atenção, aumento dos pequenos erros ou falhas no dia a dia profissional, intolerância com situações corriqueiras familiares ou profissionais, diminuição da produtividade, sonolência diurna, entre outros. 

Se for o seu caso, peça ajuda! Se familiares ou amigos abordarem a questão, entenda como sinal de alerta.. Somente com apoio familiar e acompanhamento adequado o problema pode ser tratado de modo eficaz. Muitas vezes a conscientização e pequenas mudanças na rotina diária podem ser bastante eficazes na resolução do quadro, porém a busca por suporte psicológico e até psiquiátrico é fundamental nas situações de maior gravidade. 

Prevenção

Prevenir é sempre a melhor opção. Manter-se física e mentalmente saudável ajuda a evitar os possíveis sintomas de uma vida dedicada à profissão. É preciso buscar o equilíbrio. Fazer exercícios ou algum tipo de atividade física, ter contato regular com a natureza, socializar e conversar sobre você com amigos e familiares, cultivar a espiritualidade e ter horas de sono de qualidade ajudam a equalizar o desgaste relacionado à atividade profissional. 

Também é importante conhecer as entidades e canais disponíveis para ajuda (a maioria feita de forma a preservar o anonimato), como o telefone 188 – Centro de Valorização da Vida, ou nas redes sociais, como é o caso do #EuEstou, que, por meio de sua página no facebook busca auxiliar pessoas que estão passando por dificuldades relacionadas às doenças mentais, utilizando o facebook como uma ferramenta de fácil acesso a informações e ajuda pessoal.

CONTEÚDO TÉCNICO: DR. CLÁUDIO J. TREZUB

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