SURFANDO NUM TSUNAMI: MÉDICOS PERITOS E MÉDICOS DO TRABALHO VIVENCIANDO A PANDEMIA

Publicado em: 23 de abr, 2020

TEMPO DE LEITURA: Aprox. 3min

Até há 2 meses, apesar de algumas turbulências, médicos do trabalho e peritos velejavam sem muitos percalços, e a preocupação com o trabalho e a subsistência não era mais que aquela típica de um país com incertezas políticas e econômicas “administráveis”. O sistema funcionando baseado em premissas e costumes já estabelecidos desde o século passado, ao qual, apesar de por vezes criticarmos, estávamos perfeitamente adaptados.

Eis que surge, do outro lado do mundo, uma nova doença da qual nada se sabia, a não ser seu parentesco com o resfriado. Tão distante, e a princípio tão insignificante parecia, que não se poderia imaginar pudesse vir a perturbar nossa vida pessoal ou profissional. 

Então continuamos a cumprir nossas agendas e marcar novos compromissos, como se o sistema fosse inabalável, e talvez esperando (ou acreditando) que a onda se esvairia nas praias dos outros países pelos quais passaria. Acreditamos que a nossa zona de conforto não seria abalada por “mais uma gripe” nascida na China.

Falta de conhecimento (eufemismo para ignorância), aliada a informações distorcidas ou mesmo sonegadas, e mais a participação nem sempre adequada de dirigentes e políticos responsáveis, fizeram com que ficássemos ofuscados (senão cegos) ao crescimento exponencial da onda, e, de repente, nos vimos frente a um tsunami para o qual não tínhamos nem temos nenhum preparo.

E nosso conforto acabou em 15 dias, com todo o sistema tendo que sofrer mudanças e adaptações antes nem imaginadas.  

MÉDICOS NÃO SÃO SUPER HERÓIS

O que os médicos têm de diferente de outros profissionais é um profundo senso de respeito pelo ser humano e pela vida, e a obrigação de trabalhar sob princípios éticos e morais que superam a condição meramente materialista.

Para além da aura que por vezes a sociedade nos empresta, exacerbada e romantizada em tempos como estes, os médicos são pessoas com virtudes e defeitos, e, principalmente, com necessidades semelhantes à de qualquer cidadão-trabalhador.

Não somos invulneráveis, e por vezes até adoecemos mais que qualquer outro profissional, como é o caso desta infecção à qual devemos fazer frente de batalha. 


Somos pais e mães, muitos já avós, enfrentamos desafios em termos de educação e sustento dos filhos, dificuldades financeiras e no trabalho, e sofremos muito com o estágio atual da nossa profissão no Brasil. Salários aviltantes, falta de reconhecimento por parte dos administradores e governantes, condições de trabalho deploráveis, hospitais e serviços de saúde sucateados, mercantilismo institucional. E mesmo assim, não por heroísmo, mas principalmente por este senso de responsabilidade que a Medicina nos impõe, não nos eximimos de realizar nossas funções no objetivo da preservação da vida humana.

A PANDEMIA: E AGORA?

E, de súbito, eis que nos deparamos com a ameaça real. Da mesma forma que a população em geral, fomos engolidos pelo tsunami de terror e pelo medo do desconhecido. 

Sabe-se que frente a um perigo real falam mais alto o instinto básico de sobrevivência e a atitude de proteção dos familiares. E assim deve ter sido a reação primeira da maioria dos médicos, em especial aqueles que, como eu, fazem parte do grupo de risco.

Foi bastante perceptível, nos grupos de conversas e nas redes sociais, atitudes de autoproteção e prevenção quanto à doença, inclusive não sendo poucas as manifestações daqueles que, antevendo a impossibilidade de não se expor, buscaram se munir de medicamentos, que mesmo ainda não suficientemente testados, poderiam auxiliar no tratamento. Face à possibilidade real de desenvolver formas graves da doença, incapacitar-se por longo tempo ou até morrer, alguns externaram que estavam ou já tinham tomado providências com auxílio de advogados, no sentido de não deixar a família desamparada.

Ter maior conhecimento técnico nos coloca diante de situações de exigência emocional incomensurável.


Nada fácil lidar pragmaticamente com situações como cobertura de plano de saúde, plano de assistência funeral, pecúlios e seguros, e até partilha de bens (ou dívidas?), e, ao mesmo tempo, informar e acalmar amigos e familiares, ou praticar a medicina mesmo à distância.

Isolados para nos cuidar, temos o dever de cuidar e animar os demais. E ainda lidar com o sentimento de não estarmos fazendo o suficiente, como médicos, para ajudar o país nesta guerra.

PERITOS E MÉDICOS DO TRABALHO

Médicos peritos, que são pessoas e que estão vivenciando a situação como já exposto, devem ainda lidar com a dualidade entre ficar sem ganho em virtude da não realização de perícias e o conhecimento de que, sem a perícia o indivíduo não terá decidido seu pleito na justiça, e assim sendo, continuará sem amparo financeiro.

Médicos do trabalho, cuja função primordial é a proteção e preservação da saúde do trabalhador, tendo que lidar com situações como não poder eliminar o risco de contágio dos trabalhadores que continuam em atividade, bem como esclarecê-los e orientá-los quando adoecerem. E cuidar de si próprios da mesma forma.

PERSPECTIVAS

Embora enfrentando uma tormenta sem precedentes, é certo que os médicos seguirão firmes no seu propósito maior, e quando a onda passar, sairemos todos mais fortes. Que o aprendizado que estamos tendo, como profissionais e como pessoas, nos torne mais humanos e mais capazes de lidar com adversidades.

CONTEÚDO TÉCNICO: DOUTOR CLÁUDIO J. TREZUB



Veja também...